Montagem com fotos da trajetória acadêmica e profissional de Raquel Oliveira, incluindo a conclusão da graduação na UFMG, especialização na FUMEC, cursos de oratória, apresentações, entrevistas, certificados e momentos marcantes de desenvolvimento profissional na área de comunicação.

A busca por pertencimento que me levou ao posicionamento

Uma história sobre pertencimento, identidade e a busca pelo próprio lugar.

Lembro de estar sentada em uma sala da UFMG olhando ao meu redor e pensando:

“Talvez eu tenha entrado no lugar errado.”

Não porque eu não fosse capaz.

Mas porque parecia que todo mundo sabia exatamente como agir, o que falar e até onde queria chegar.

Eu não.

Ali, pela segunda vez na vida, eu me sentia uma estranha.

A primeira tinha sido na favela onde cresci.

Eu achava que entrar na universidade resolveria tudo.

Que a aprovação seria o ponto final das minhas inseguranças.

Que finalmente encontraria pessoas parecidas comigo.

Que sentiria que pertencia àquele lugar.

Mas a vida não funciona assim.

Porque, às vezes, você conquista exatamente aquilo que sempre sonhou e ainda continua carregando as mesmas perguntas.

E a principal delas era:

Onde é o meu lugar?

O mundo que me formou

Eu cresci em uma família simples.

Meu pai trabalhava sem parar.

Minha mãe cuidava da casa e dos filhos com uma dedicação que só hoje consigo compreender.

Não tínhamos muito.

Mas tínhamos amor.

E isso faz toda diferença.

Lembro das consultas por causa da anemia.

Da farinha distribuída pelo posto de saúde para complementar a alimentação das crianças.

Lembro das histórias do meu pai sobre a infância dele.

Existe uma foto que nunca saiu da minha memória.

Nela, meu pai aparece extremamente magro, carregando no corpo as marcas da desnutrição que enfrentou quando criança.

Ele sabia o que era passar necessidade.

Sabia o que era crescer sem oportunidades.

E decidiu que os filhos viveriam uma história diferente.

Por isso trabalhou tanto.

Empreendeu.

Construiu.

Lutou.

Tentou abrir caminhos que ele próprio nunca teve a chance de percorrer.

Durante muitos anos eu dizia que jamais seria empreendedora.

Porque, na minha cabeça, empreender significava trabalhar sem parar.

E eu tinha visto meu pai fazer exatamente isso.

O chamado

Eu estudava em uma escola pública onde a violência fazia parte da rotina.

Era comum ver professores sendo desrespeitados.

Brigas.

Confusões.

Situações que hoje parecem difíceis de acreditar.

Mas, curiosamente, essa não era a parte mais difícil.

E além disso, eu continuava me sentindo diferente.

Enquanto muitos dos meus colegas sonhavam apenas em terminar a escola, eu queria algo que nem sabia explicar direito.

Eu queria conhecer o mundo.

Queria estudar.

Queria descobrir se existia uma realidade diferente daquela que eu conhecia.

O problema é que ninguém ao meu redor tinha esse mapa.

Eu teria que construir o caminho sozinha.

Foi nessa época que aconteceu algo que nunca esqueci.

Eu estava em um culto onde a cantora Ludmila Ferber ministrava.

A igreja estava cheia.

Em determinado momento ela interrompeu a música e disse:

“Existem pessoas aqui que vão passar em universidades públicas.”

Ela não sabia quem eu era.

Não conhecia minha história.

Mas eu senti que aquela palavra era para mim.

Saí daquele culto carregando aquela frase.

Como quem guarda uma promessa.

Como quem segura uma esperança.

As primeiras derrotas

Quando tentei a UFMG pela primeira vez, não passei.

Doeu.

Porque parecia que aquele sonho estava distante demais da minha realidade.

Por alguns dias pensei que talvez eu tivesse entendido tudo errado.

Mas continuei estudando.

Continuei acreditando.

Continuei tentando.

Até que veio a segunda tentativa.

Quando o resultado saiu, fui procurar meu nome.

Li a lista uma vez.

Depois outra.

E então encontrei.

Meu nome estava lá.

Eu tinha passado.

Passei na UFMG.

Por alguns segundos fiquei parada.

Sem reação.

Como se meu cérebro precisasse de tempo para entender o que estava acontecendo.

Depois chorei.

Chorei muito.

E a primeira coisa que fiz foi chamar meus pais.

Eu precisava contar para eles.

Porque aquele sonho nunca foi só meu.

Era nosso.

Meus pais talvez não entendessem completamente o significado de uma universidade federal.

Mas entendiam o significado de uma oportunidade.

Entendiam o que representava ver uma filha chegar onde eles nunca tiveram a chance de chegar.

Naquele momento eu senti que estava abrindo uma porta que minha família nunca teve a oportunidade de atravessar.

A falsa vitória

Passei.

Jornalismo e Relações Públicas. A primeira turma de Comunicação Social noturna.

Lembro da felicidade.

Da comemoração.

Da sensação de que finalmente tinha conseguido.

Mas ninguém me contou que conquistar um sonho não resolve todas as inseguranças.

Porque quando cheguei lá, a pergunta continuava.

Onde eu pertenço?

Na comunidade onde cresci eu me sentia diferente.

Na universidade também.

Muitos colegas tinham referências que eu não tinha.

Experiências que eu nunca tinha vivido.

Viagens.

Idiomas.

Realidades completamente diferentes da minha.

Ao mesmo tempo, eu carregava características que também me faziam sentir diferente.

Eu era cristã.

Vinha da escola pública.

Era uma mulher preta tentando descobrir quem era e qual espaço ocupava no mundo.

Mais uma vez eu me sentia entre dois mundos.

Sem pertencer completamente a nenhum deles.

O inimigo invisível

Durante anos carreguei uma sensação estranha.

Como se precisasse provar alguma coisa.

Provar que era inteligente.

Provar que merecia estar ali.

Provar que minha origem não definia meu futuro.

Talvez por isso uma frase tenha me marcado tanto.

Eu não lembro exatamente o contexto.

Mas lembro perfeitamente do impacto.

“Pobre é burro.”

Ouvir aquilo foi como levar um soco.

Porque, por alguns segundos, eu me perguntei se era assim que as pessoas me enxergavam.

E talvez tenha sido naquele momento que nasceu uma necessidade constante de provar o contrário.

Então eu estudava mais.

Trabalhava mais.

Me preparava mais.

Tentava ser suficiente.

A busca

E, ingenuamente, achei que o diploma abriria todas as portas.

Não abriu.

O primeiro ano passou.

Depois o segundo.

Depois o terceiro.

Depois o quarto.

E nada.

Consegui meu primeiro emprego em uma agência de assessoria de imprensa.

Lembro da felicidade que senti.

Era a oportunidade que eu tanto queria.

Em pouco tempo já coordenava equipes.

Passei por outras empresas.

Assumi novos desafios.

Fiz pós-graduação em Comunicação e Marketing.

Continuei estudando.

Continuei me desenvolvendo.

Continuei correndo.

Mas havia algo curioso.

A cada conquista surgia uma nova meta.

Como se a próxima realização finalmente fosse me fazer sentir suficiente.

Como se eu ainda estivesse tentando provar alguma coisa para alguém.

Ou talvez para mim mesma.

A descoberta

Até que percebi algo.

O problema nunca foi capacidade.

Nunca foi inteligência.

Nunca foi origem.

Era identidade.

Eu estava tentando conquistar pertencimento através de resultados.

Mas pertencimento não nasce da validação dos outros.

Nasce da clareza sobre quem você é.

Nasce quando você para de perguntar se merece ocupar um espaço e começa a entender qual espaço deseja construir.

Foi uma das maiores lições da minha vida.

O retorno

Talvez seja por isso que me apaixonei tanto por posicionamento.

Porque, no fundo, posicionamento não é apenas sobre marcas.

É sobre identidade.

É sobre descobrir quem você é antes de decidir como quer ser percebido.

É sobre ter clareza suficiente para não precisar se esconder atrás de expectativas, comparações ou validações externas.

Antes de ajudar empresas a encontrarem seu lugar no mercado, eu precisei encontrar o meu.

E talvez seja por isso que hoje consigo compreender tão bem pessoas, histórias e negócios.

Porque eu mesma passei anos tentando responder uma pergunta simples:

Onde é o meu lugar?

Durante muito tempo procurei um lugar onde eu me encaixasse.

Hoje entendo que minha história nunca foi sobre me encaixar.

Foi sobre construir o meu próprio lugar.

Sobre a autora

Raquel Oliveira é estrategista de marca e comunicação, especialista em posicionamento e construção de marcas. Há mais de 10 anos ajuda empresas e profissionais a encontrarem clareza sobre quem são, como desejam ser percebidos e como transformar essa identidade em crescimento sustentável. Neste blog, compartilha estratégias, pesquisas, reflexões e histórias sobre posicionamento, branding, comunicação, carreira e desenvolvimento profissional.

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