Raquel Oliveira ministrando palestra sobre comunicação e oratória para público corporativo.

O homem que parecia não gostar da minha palestra e a verdade sobre o medo de falar em público

A maior parte do julgamento está na nossa cabeça

Em uma época não muito distante, eu vendia cursos de oratória.

Uma das estratégias que eu utilizava para apresentar meu trabalho era realizar workshops gratuitos, entregando técnicas reais para quem quisesse participar. Era uma espécie de degustação do treinamento.

Em um desses encontros, vivi uma situação que me trouxe uma das reflexões mais importantes da minha trajetória trabalhando com comunicação.

A sala estava lotada.

As pessoas participavam dos exercícios, faziam perguntas e a troca acontecia de forma muito positiva.

Mas havia uma pessoa que chamou minha atenção durante praticamente toda a apresentação.

Lá no fundo da sala estava um homem com uma expressão séria.

Ele balançava a cabeça enquanto eu falava e demonstrava um comportamento que, na minha interpretação, indicava discordância ou insatisfação.

Como acontece com muitos profissionais que enfrentam o desafio de falar em público, comecei a criar hipóteses.

Talvez ele não estivesse gostando.

Talvez discordasse do conteúdo.

Talvez considerasse as técnicas simples demais.

Talvez achasse que aquele workshop não agregaria valor.

A verdade é que eu não sabia.

Mas, naquele momento, lembrei de algo que eu mesma ensinava aos meus alunos: nem sempre a realidade é aquilo que imaginamos.

Por que o medo de falar em público é tão comum?

O medo de falar em público é muito mais comum do que parece.

Segundo um estudo divulgado pelo jornal britânico Sunday Times, 41% das pessoas afirmaram que falar em público é seu maior medo, superando inclusive preocupações relacionadas a problemas financeiros, doenças e até a própria morte.

Outro levantamento divulgado pela USP mostrou que mais da metade da população se considera tímida. Entre os principais desafios relatados está justamente a exposição diante de outras pessoas.

Não é difícil entender o motivo.

Quando nos colocamos diante de uma plateia, seja em uma palestra, reunião, apresentação comercial ou até mesmo em uma reunião de equipe, temos a sensação de que estamos sendo observados e julgados o tempo todo.

Mas existe um detalhe importante.

Na maioria das vezes, o julgamento que mais nos limita não vem das outras pessoas.

Ele nasce dentro da nossa própria cabeça.

A maior parte do julgamento está na nossa cabeça

Enquanto eu observava aquele participante durante o workshop, minha mente criava histórias.

Eu interpretava sua expressão.

Tentava adivinhar seus pensamentos.

Construía conclusões sem ter qualquer evidência concreta.

E quantas vezes fazemos exatamente isso no dia a dia?

Em uma apresentação.

Em uma reunião.

Em uma entrevista de emprego.

Em uma negociação.

Interpretamos uma expressão facial, um silêncio ou uma postura e imediatamente concluímos que estamos sendo criticados.

O problema é que quase sempre estamos trabalhando com suposições.

Não com fatos.

O que aquele participante me ensinou

Quando o workshop terminou, aquele homem veio conversar comigo.

E disse:

“Raquel, eu estava indignado.”

Naquele instante pensei:

“Então eu estava certa.”

Mas ele continuou:

“Indignado comigo mesmo.”

E completou:

“Porque percebi que não faço nada do que você ensinou. Eu preciso aprender isso.”

Naquele momento, percebi o quanto minha interpretação estava distante da realidade.

O que eu enxergava como resistência era reflexão.

O que parecia discordância era consciência.

O que parecia rejeição era aprendizado acontecendo.

Como vencer o medo de falar em público

Ao longo dos anos trabalhando com comunicação e oratória, percebi que o medo de falar em público raramente está relacionado apenas à fala.

Na maioria das vezes, ele está ligado ao medo do julgamento.

Por isso, algumas mudanças de perspectiva ajudam muito:

1. Pare de tentar adivinhar o que as pessoas estão pensando

Você não tem acesso aos pensamentos da plateia.

Trabalhe com fatos, não com interpretações.

2. Lembre-se de que a maioria das pessoas também sente insegurança

Muitas das pessoas que estão te ouvindo gostariam de ter a coragem de estar no seu lugar.

3. Foque na mensagem, não na aprovação

Quando sua atenção está em servir, ensinar ou ajudar, a preocupação com a própria imagem perde força.

4. Aceite que desconforto faz parte do processo

A confiança não aparece antes da ação.

Ela é construída durante a prática.

A lição que levo para a vida

Desde aquele dia, carrego uma reflexão que vai muito além da oratória.

Nem toda expressão séria significa desaprovação.

Nem todo silêncio significa desinteresse.

Nem toda aparente resistência é uma objeção.

Muitas vezes, enquanto estamos preocupados com o que os outros pensam de nós, as pessoas estão apenas enfrentando suas próprias batalhas internas.

E foi justamente o homem que eu achei que estava rejeitando minha mensagem quem mais havia sido impactado por ela.

Talvez essa seja uma das maiores lições sobre comunicação:

a maior parte do julgamento que nos impede de avançar não está na plateia. Está na história que contamos para nós mesmos.

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